BREVE BIOGRAFIA DE DANIEL COMBONI

Daniel Comboni demonstrou-se verdadeiro percursor do que a África deveria ser e está tornando-se”, assim escreveu o Cardeal nigeriano Francis Arinze, perfeito para a evangelização dos povos.
“Daniel Comboni foi pai, pastor e amigo da África”, escrevia assim um dos missionários presentes à morte de Daniel Comboni, sobrevinda em Cartum no dia 10 de Outubro de 1881.
Tudo isto foi certamente, Daniel Comboni. Mas acima de tudo, foi um sinal tocável para todos da presença de Cristo, do seu amoroso carinho para com os africanos, naquele tempo discriminados e tidos como os últimos da terra.
A paixão missionária pelos povos africanos ficou sintetizada nos seus motes mil vezes repetidos: “Salvar ou regenerar a África com a África”; “África ou morte”.
Na sua vida podemos distinguir cinco etapas diferentes.
1. Nascimento, educação e vocação missionária
Daniel Comboni nasce a 15 de Março de 1831, em Limone sul Garda, no nordeste de Itália. Foi baptizado no dia a seguir ao do nascimento com os nomes de António Daniel. Este último nome será o que sempre utilizará. A família é camponesa e pobre, mas religiosa.
A 20 de Fevereiro de 1843 é recebido em Verona na instituição fundada pelo P. Nicolau Mazza, onde se prepara para o sacerdócio e onde vai surgir a sua vocação missionária.
Principia os estudos de Teologia em 1850, tendo sempre os olhos postos na missão africana. É ordenado sacerdote em Trento, a 31 de Dezembro de 1854.
Depois da sua ordenação, Comboni continua, ainda durante algum tempo, os seus estudos.
No encontro e na escola de Mazza e pelo contacto providencial com o drama da escravatura dos africanos (tornou-se amigo de um escravo sudanês num mercado de escravos no Egipto, trazido para Verona e educado por Mazza) abriu-se à vocação missionária.
A 6 de Janeiro de 1849, com 18 anos, Comboni, então jovem estudante de Filosofia, jura perante o P. Mazza dedicar-se à missão da África Central.
2. A primeira experiência missionária
A segunda etapa da sua vida inicia-se em 1857, ano decisivo para a sua vocação missionária. Nesse ano, Comboni faz um retiro de uma semana para discernir melhor a sua vocação. No final do retiro, o director espiritual assegura-o de que a sua vocação é ser missionário.
Após uma dolorosa separação dos pais (Comboni era o único filho vivo), parte para a África a 6 de Setembro de 1857, como membro da primeira expedição missionária enviada pelo Instituto do P. Mazza, do qual Comboni era membro.
A 14 de Fevereiro de 1858 chegam à missão de Santa Cruz, no coração da África. Ali Comboni vive com intensidade o seu primeiro encontro com a África negra. Em poucos meses morrem alguns dos seus companheiros. Perante um deles, Comboni jura consagrar-se para sempre à missão africana.
Um ano mais tarde, a 17 de Junho de 1859, os missionários vêem-se obrigados a retirar-se de Santa Cruz. Comboni tem que voltar à Itália, devido ao esgotamento provocado pelas doenças tropicais.
Nesta etapa, Deus fez-lhe provar o cálice da dolorosa separação dos pais, da morte da mãe e de alguns companheiros e do fracasso da missão.
Em Itália, de 1859 a 1864, Comboni fica encarregado da educação de alguns jovens africanos resgatados da escravatura. A 26 de Novembro de 1860, viaja uma segunda vez para África, conseguindo resgatar vários jovens escravos e trazê-los para a Europa.
3. A etapa do seu Plano Missionário
A terceira etapa da vida de Comboni inicia-se durante uma visita a Roma. Enquanto reza na Basílica de S. Pedro, Comboni concebe um Plano: “Plano para regenerar a África com a África”. Era o dia 15 de Setembro de 1864. Trabalha na redacção do Plano durante sessenta horas seguidas. Três dias depois apresenta o seu Plano missionário ao Card. Barnabó, Prefeito da Propaganda Fide (organismo que coordenava o trabalho missionário em todo o mundo). No dia seguinte apresenta-o ao Papa Pio IX.
Neste plano global para a evangelização da África, desde o primeiro momento, comboni considera os africanos como sujeitos da história evangelizadora.
Aconselhado pelo próprio Card. Barnabó, empreende uma longa viagem pela Europa para divulgar as suas ideias missionárias expressas no Plano.
Uma série de incompreensões por parte de alguns membros do Instituto Mazza levam-nos a tentar expulsá-lo da instituição, acusando-o de independência. Com a morte do P. Nicolau mazza nesse mesmo ano, Comboni acaba por ter que abandonar o instituto.
Comboni fica assim sozinho no compromisso missionário e é aconselhado pela própria Propaganda Fide a fundar um instituto em favor da África.
Lança um movimento missionário a envolver bispos, sacerdotes, religiosos e leigos com uma grande e única paixão: tornar Cristo presente no mundo africano. Com este objectivo cria várias obras e institutos missionários. Comboni fazia questão de sublinhar que a vocação missionária era parte constitutiva do baptismo de todo o cristão, e não apenas “assunto de frades e monjas”.
Por isso, abre as estradas missionárias entre os não cristãos (”ad gentes”) a sacerdotes diocesanos e a leigos, consagrados ou casados. Pensou e quis as mulheres, tanto as consagradas como missionárias (chama-as “virgens da caridade”), como as casadas, verdadeiras missionárias no interior da África. Logo em 1867, leva consigo, como missionários, para a África, 15 jovens africanos homens e mulheres, muitos deles e delas antigos escravos e escravas, mas resgatados, feitos cristãos e formados por ele e seus amigos para professores e professoras.
“Daniel Comboni foi um profeta incansável em favor da África e à face dos seus contemporâneos”, escreve dele o Cardeal Africano Arinze. Percorreu incansavelmente os caminhos de toda a Europa gritando o sofrimento da África. Bate a todas as portas tanto eclesiais como leigas: movimentos eclesiais, ordens religiosas, associações de leigos, homens políticos, sem alguma discriminação. Bastava-lhe que suspeitasse de algum coração sensível aos problemas dos africanos para se apelar aos seus sentimentos. Assim o demonstra a vastíssima correspondência com toda a espécie de pessoas.
4. A etapa das fundações missionárias
O dia 1 de Junho de 1867 marca o início da quarta etapa da vida de Comboni. Nessa data funda o Instituto Missionário para a África Negra, que dará lugar mais tarde aos actuais Missionários Combonianos.
O Senhor coloca-lhe no caminho um grupo de sacerdotes camilianos que se disponibilizam para trabalhar em África, como associados do Instituto de Comboni. Encontra também a ajuda de uma congregação feminina francesa, as Irmãs de S. José da Aparição. Esta congregação religiosa tinha já experiência de trabalho entre os árabes.
Com a ajuda destes missionários e missionárias, Comboni funda no Cairo, a 8 de Dezembro de 1867, duas instituições para a formação de jovens africanos. O seu intuito é torná-los missionários da sua própria raça, conforme a ideia chave do Plano: “Salvar a África com a África”.
Depois de uma viagem à Europa entre 1868 e 1869, para difundir a obra missionária do Bom Pastor, regressa em Janeiro de 1869 parte pela quinta vez para a África com os dois primeiros membros do seu Instituto.
Em Junho de 1870 apresenta no Concílio Vaticano I, um “Pedido em favor dos Negros da África Central”, assinado por uns setenta bispos que participavam no concílio.
Por essa altura, a missão da África Central estava totalmente abandonada. A Propaganda Fide decide, então, entregá-la a Comboni e ao seu Instituto.
Comboni empreende outra viagem pela Europa com a finalidade de dar a conhecer o seu Plano, de encontrar vocações para África e de recolher ajudas para o seu Instituto. É na Alemanha que lança o lema da sua vida: “África ou morte”.
A 1 de Janeiro de 1872, Comboni funda o Instituto das Pias Madres da Nigrícia (futuras Missionárias Combonianas). É um Instituto feminino exclusivamente dedicado à evangelização da África. Serão as primeiras religiosas que penetrarão no próprio coração da África juntamente com as Irmãs de S. José, conduzidas por Comboni, nesse ano, para a África Central.
Em Janeiro de 1872 funda também uma publicação missionária: os “Anais do Bom Pastor”, que mais tarde, em 1882, tomará o nome de “Nigrícia”.
5. Responsável pela missão da África Central
A 26 de Maio de 1872 o Papa Pio IX que confia a missão da África Central aos Institutos combonianos. É a quinta etapa da vida de Comboni.
Lutador indomável contra o comércio oriental dos escravos, lamentou quer a política de exploração colonial como a ambiguidade de certas atitudes de políticos e eclesiásticos de então, relativamente á missões.
Aúnica coisa que lhe importava, segundo quanto escreve de Cartum um mês antes demorrer, é “que se converta a Nigrícia (o tecido social dos povos de cor); (…)esta foi a única e verdadeira paixão de toda a minha vida, e sê-lo-á até àmorte, e não me envergonho de forma alguma de o dizer”.
Comboni, portanto, tinha a convicção clara de que o missionário devia ser o abraço tangível de Cristo para os povos da África; o único objectivo da sua vida devia ser “levar e dar a todos o ósculo pacificador de Cristo”.
A 18 de Setembro de 1872, parte pela sexta vez para África à frente de uma expedição missionária. Após uma viagem longa e penosa, chega a Cartum a 4 de Maio de 1873. No domingo seguinte, 11 de Maio, marca a reabertura da missão da África Central com uma homilia em árabe, na qual traça as linhas de fundo da espiritualidade e da acção missionária que ele deseja para si e para os seus missionários.
Dirá aos seus poucos fiéis: “entre vós deixei o meu coração (…) e hoje, finalmente, o recupero, voltando para junto de vós. Regresso a vós, para nunca mais deixar de ser vosso (…) O dia e a noite, o sol e a chuva encontrar-me-ão, igualmente sempre disponível para as vossas necessidades espirituais: o rico e o pobre, o são e o enfermo, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu, e as vossas penas serão também as minhas. Começo hoje a fazer causa comum com cada um, e o mais feliz dos meus dias será aquele em que puder dar a vida por vós”.
Em 1874, funda novas missões e projecta outras para a zona equatorial dos Grandes Lagos, então ainda inexplorada. Porém, graves dificuldades com os padres camilianos, impedem Comboni de desenvolver a missão segundo os seus planos. Comboni é forçado a voltar à Europa em Março de 1876 e ir a Roma responder perante a Propaganda às acusações apresentadas pelos seus antigos colaboradores. A Propaganda, não só proclama a inocência de Comboni, como, alguns meses mais tarde, o nomeia Vigário Apostólico da África Central. A 12 de Agosto de 1877 Comboni é consagrado bispo.
No dia 15 de Dezembro de 1877 parte pela sétima vez para África com alguns missionários do seu Instituto e as cinco primeiras missionárias do Instituto feminino.
Chega a Cartum a 12 de Abril de 1878. Pouco depois da sua chegada, funda a missão de Malbes, com um projecto inovador de cooperativas agrícolas e de povoações cristãs. Todavia, uma terrível seca que se abateu sobre a África Central dizimando muitos habitantes, pôs de novo entraves aos planos de expansão missionária, pois a missão teve que dedicar-se a socorrer as vítimas. Alguns missionários caíram também vítimas. O próprio Comboni adoeceu gravemente e por isso teve de regressar à Europa em 1879.
A 27 de Novembro de 1880 partirá para África pela oitava e última vez. Chega a Cartum a 28 Janeiro de 1881. Depois de visitar as missões de El Obeid, de Malbes a de Delen, e as regiões montanhosas dos Nubas para traçar um mapa detalhado da região, regressa a Cartum a 9 de Agosto.
Neste momento, Comboni sofre uma série de desgostos, que viriam a minar a sua saúde. As dores causadas pelas incompreensões de alguns dos colaboradores na Europa, a morte dos missionários, as epidemias que arrasam as missões e a solidão em que se encontra fazem com que estes últimos dias da sua vida se assemelhem aos do Mestre.
A 4 de Outubro, Comboni cai desfeito pela dor e pela doença. Ainda resiste alguns dias, vendo-se obrigado a assistir alguns dos missionários doentes.
A 10 de Outubro de 1881, poucas horas antes de morrer, faz prometer aos missionários presentes ao redor do seu leito de morte que serão fiéis à vocação missionária a favor dos africanos. Morre às 10 horas da noite daquele dia 10 de Outubro de 1881.
Os últimos anos da sua vida foram anos de incrível sofrimento: “crucificado com Cristo para a África”, dirá muitas vezes. “Sinto no coração o peso da Cruz…”, escreve oito dias antes de falecer. O Senhor tinha-o provado espiritualmente mediante o Mistério da Cruz. Na esteira dos santos, acolhe-o cada vez mais convencido como garantia de fecundidade eclesial para os seus povos discriminados da África.
“A Cruz tem a força de transformar a África em terra de bênção e salvação… Eu não me importo de nada … O que me interessa é a conversão da Nigricia”, escreve pouco antes de fechar os olhos. Não se cansara nunca de dizer a todos que “a África só na realidade da Igreja, Corpo de Cristo, pode encontrar a sua verdadeira dignidade e liberdade”. Para os africanos, ele vê um único caminho possível para alcançar a sua plena dignidade: a fé em Cristo, como aos bispos do Vaticano I havia frisado.
Na noite de 10 de Outubro de 1881chegou para ele o momento do encontro com o seu Senhor, precisamente no coraçãodaquela África que com tanta paixão amara. “Todos os africanos choram pelo seubispo - “Mutram es Sudan - e o chamam pelo nome de pai, pastor e amigo…”,escreveu um Comboniano canadense, Artur Bouchard, que estava junto dele, nomomento derradeiro.http://www.scribd.com/doc/15464763/Vigilia-de-oracao-Daniel-Comboni
“Para Daniel Comboni - comenta o Cardeal Francis Arinze - consumido pelo desejo de partilhar a boa nova de Jesus Cristo com todos os africanos, a evangelização do Continente Africano é tarefa de toda a Igreja (…). No tempo de Comboni muitos pensavam na África como objecto de exploração, ocupação, de repartilha e de domínio. Outros pensavam numa África a ajudar, a civilizar ou a educar. Mas também nesta óptica, vista como objecto, não como sujeito. Não era assim que Comboni pensava”. Ele queria uma África onde resplandecesse em plenitude o rosto de Cristo. Como se exprime o seu directo sucessor no Sudão, o actual Arcebispo de Cartum, Gabriel Zubeid: “Nós cristãos africanos somos os filhos e as filhas de Daniel Comboni. Sem ele, ainda hoje não haveria, nesta terra, bispos, sacerdotes, diáconos, irmãos, religiosas, cristãos (…). Mas o seu impulso missionário não nasceu de um projecto simplesmente exterior; foi fruto da sua obediência eclesial à graça do Espírito Santo”. Eis porque, no momento da prova suprema, momentos antes de expirar, pôde dizer aos seus missionários: “Eu morro, mas esta obra (a missão africana) não morrerá (…). As obras de Deus nascem aos pés da Cruz”.

